Ricardo Pereira - Multiartista - multinacional

Ricardo Pereira, 38, nunca pensou ser ator. Trabalhava como modelo, manequim e já agarrava o mercado internacional quando percebeu a necessidade de “procurar um bocadinho mais de formação”, como explica. Conhecia várias pessoas no ramo da representação, frequentava teatro e daí a fazer uma peça de teatro profissional foi um pulo. O resultado conhecemos hoje. Um dos atores mais brilhantes de sua geração. Nesta entrevista nos conta um pouco sobre sua infância, seus trabalhos, sobre Brasil e sobre Portugal.

Nasceu em qual região de Portugal? Nos conte como foi sua infância.

Nasci em Lisboa, sou lisboeta, e a relação com a cidade é muito próxima. Lembro-me que a minha infância foi muito dividida: durante a semana em Lisboa, em escolas, e ao final de semana sempre muito na Ericeira (uma vila de praia a 20 minutos de Lisboa) e foi maravilhoso porque foi lá que eu aprendi a falar, a fazer surf. É um lugar que estimo muito onde se come um peixe incrível, uns frutos do mar e marisco como nunca comi igual e onde se pegam umas ondas ótimas. É um lugar que me marcou bastante. Foi lá que aprendi também a liberdade de exploração da vida de campo, da natureza, porque era um lugar muito seguro e onde nós poderíamos, livremente, explorar as praias e as montanhas. Tínhamos um grupo de amigos que se formou ali e que é amigo até hoje.

Seu primeiro trabalho profissional adulto foi com a peça “Real Caçada ao Sol” de Peter Shaffer, ganhador do Oscar em 1985 pelo roteiro de “Amadeus”. Como foi trabalhar com este premiado dramaturgo?

Já tinha feito muito teatro infantil, mas sem dúvida que foi um prazer trabalhar numa peça de um renomado dramaturgo, encenada por um grande diretor de teatro e encenador português que é o Carlos Avilez, no maior e mais emblemático teatro de Portugal que é o Teatro Nacional Dona Maria II. Portanto estreei-me numa grande produção de teatro e num grande palco teatral e isso foi extremamente importante, crucial, definiu-me e marcou-me para sempre. Criou também, dentro de mim, a disciplina inerente a esta profissão, porque trabalhei com atores com muitos anos de trabalho, que foram, sem dúvida, professores deste meu começo e que me colocaram e me ensinaram todos os parâmetros, todas as coisas que nós devemos carregar, trazer, lembrar e relembrar sempre durante o nosso percurso. Portanto a minha disciplina vem, sem dúvida, desde este íncio.

Em seguida vieram as novelas portuguesas.

Vieram sim as novelas, mas ao mesmo tempo veio o cinema. Fui muito acolhido e adotado pelos grandes nomes do cinema autoral português, as grandes referências do cinema, as bases do nosso cinema português. E comecei a trabalhar muito em cinema desde muito novo. E a televisão até veio antes das novelas, porque a primeira produção televisiva que fiz foram duas séries: “O Bairro da Fonte” e os “Maiores de 20”. Depois sim, vieram as novelas e a primeira foi a “Senhora das Águas”.

Virgílio, de “Deus Salve o Rei” da Rede Globo de Televisão, foi um vilão muito intenso. Como são os exercícios para “sair” do personagem quando a cena acaba?

O Virgílio de “Deus Salve o Rei” foi um personagem apaixonante que agarrou o público pelas suas vilanias, pela sua dedicação, paixão e amor pela personagem da Marina Ruy Barbosa, a Amália, e a motivação que o levava a fazer de tudo era, sem dúvida, o facto de ter perdido este grande amor da vida dele, o único amor que já tinha tido oportunidade de experenciar. Mas, ao mesmo tempo, ele era envolvente, sedutor, com uma fisicalidade diferente, com um andar diferente, com uma roupa diferente, com detalhes de anéis e pulseiras diferentes. Então era um personagem muito emblemático, com uma estética muito diferente, e que foi o grande vilão de “Deus Salve o Rei” e que cativa até hoje porque a novela continua a passar na Globo Portugal. Para os expectadores foi um verdadeiro sucesso, foi o grande vilão, muito acolhido pela crítica e pelo público, e isso deixou-me muito feliz porque foi algo intensamente vivido para mim desde o momento da preparação para esse personagem. O ideal quando se quer desligar de um personagem é realmente desligar à séria, é vir de férias. Tive a chance de estar de férias e estou de férias pós Virgílio e é passar o dia e não pensar em trabalho e estar com as crianças e fazer as suas atividades e tentar começar a sair desse personagem. Muitas vezes só fazer a barba e cortar o cabelo já ajuda, mas há tantas outras coisas que também são importantes, mas acima de tudo desligar realmente destas características que me envolveram durante um ano, que foram preponderantes e num vilão elas manifestam-se mais e agarram-se mais.

Apesar de serem pátrias irmãs, existem diferenças culturais e gastronômicas. Como foi sua adaptação?

Eu acabo sempre por continuar a trabalhar em Portugal, assim como em França, em Espanha, na Holanda, nos Estados Unidos. Portanto foi fácil encarar este desafio Brasil porque eu acabo sempre, continuamente, a vir a Portugal trabalhar e desenvolver projetos. Existem sempre algumas diferenças mas eu acho que ao fim de tantos anos no Brasil já estou completamente acostumado e habituada a elas. Para mim já fazem parte da minha vida, ou seja, eu estou completamente adaptado a Portugal e ao Brasil. Da mesma maneira acho que essas diferenças culturais, entre as quais a língua e as formas de falar ou expressões, mesmo sendo a mesma língua mas com destaques e jeitos de falar diferentes são muito peculiares e interessantes e, hoje em dia, acabo com todos os meus amigos brasileiros ser um bocadinho mais brasileiro e com todos os meus amigos portugueses e com a minha família ser totalmente português. A gastronomia é diferente, as expressões são diferentes... mas é isso que nos enriquece enquanto pessoas, conhecer coisas diferentes, fazer-nos crescer pessoalmente e emocionalmente. Isso é fantástico.

Você já se definiu como um Workaholic. Como consegue conciliar vida familiar e trabalho?

Quem me conhece sabe que eu sou muito dedicado ao trabalho, levo muito a sério a minha carreira. Sou ator, apresentador e dedico-me a vários outros projetos paralelos à minha carreira artística, que fazem de mim um trabalhador nato e que me ocupa bastante tempo mas ao mesmo tempo essas actividades são prazerosas. Sou muito organizado e acho que com organização tudo é fácil, ou pelo menos mais fácil, só desta forma consigo estar mais tempo disponível para a minha família, para estar com os meus filhos e com a minha mulher... para namorar, para poder viajar, relaxar. Reservo também bastante tempo para descansar e dormir, acho que é crucial para ter um tempo de leitura, de teatro, de cinema. Acho que, na verdade, tudo vem de uma questão de organização.

O que seu público pode esperar para o futuro?

Agora são participações em três filmes brasileiros no segundo semestre e preparar também a segunda temporada do “Sem Cortes”, um programa que tenho o mair orgulho de apresentar. Já gravámos a temporada 2018 do “Sem Cortes” e agora vamos criar a temporada de 2019. E, depois obviamente, voltar às novelas e às séries na Globo e quem sabe outros projectos... mas mais à frente falaremos sobre isso.

Eu faço cinema francês, faço televisão em vários lugares, faço teatro. Na verdade o meu objetivo é sempre alargar os meus horizontes profissionais, porque isso faz sentido e faz-me crescer profissionalmente e os Estados Unidos é mais um mercado que eu pretendo, sem dúvida, investir, passar algum tempo e dedicar-me também para que seja um mercado onde possa ter projetos profissionais futuros muito interessantes, mas tudo a seu tempo, com calma. A minha base é o Brasil e o um trabalho que desenvolvo na TV Globo tem sido brilhante e gratificante e com desafios profissionais incríveis, mas a seu tempo, entre um trabalho e outro, quem sabe não passará por ter alguma aventura televisiva e cinematográfica também para os Estados Unidos.

Você já fez alguns ensaios fotográficos sensuais. Se sente à vontade em ser considerado um sex simbol?

Gosto acima de tudo de fotografia, portanto gosto de fazer ensaios com fotógrafos diferentes, fotógrafos arrojados, atrevidos, diferenciados, com conceitos diferentes e ir além daquilo que é normal... até às vezes encarnar algum personagem. É isso que eu pretendo fazer e sempre procurar ensaios diversificados e bonitos e que exprimam algum conceito, alguma energia e a ideia também que o fotógrafo tenha. Sinto-me perfeitamente à vontade em relação a isso.

Você curte redes sociais? É você mesmo que cuida?

Gosto de redes sociais e sou eu mesmo que cuido delas. Acho que elas são uma forma de hoje em dia de nos conectarmos ao mundo e falarmos também com as pessoas que nos assistem. Gosto imenso das diferentes redes sociais que existem, da forma que também elas nos proporcionam este contacto mais direto com quem nos assiste e o artista sem público não existe portanto é uma relação que me deixa muito feliz. Esta relação de poder falar, de receber o carinho e receber as opiniões acerca do nosso trabalho, esta ligação mais direta, mais rápida. Gosto muito das redes sociais.

Muitos brasileiros têm escolhido Portugal para morar e investir. Que conselho daria a quem está com os planos para se mudar?

Os conselhos que eu posso dar, na minha humilde opinião, é que sempre pensem antes desta decisão da mudança, pensem no que vêm fazer – uns vêm mesmo só aproveitar a vida, outros para começar negócios – pensem sempre e avaliem todas as situações. É o mesmo conselho que dou a todos os portugueses que pretendem ir para o Brasil. Mas acho que estes países caminhando de mãos dadas vão ser uma grande surpresa para o futuro, para o mundo, porque são duas potências muito particulares, muito bonitas, são dois povos muito únicos e dois países irmãos que têm tanto a ganhar se caminharem juntos para o futuro.

Para quem quer conhecer Portugal como turista, que roteiro de viagem sugere?

Sugiro um roteiro de viagem de uma pessoa que acaba de chegar a Portugal ao aeroporto de Lisboa, do Porto ou de Faro e vá num carro – porque as estradas portuguesas e os caminhos de Portugal são óptimos para se perderem, para se encontrarem de novo e para irem conhecendo. É um país que não tem muita dimensão territorial – não é assim tão grande – é bem fácil das pessoas se encontrarem, descobrirem e redescobrirem cantos. Um país que não precisa mesmo de uma viagem muito programada. Precisa apenas de um livro ou de alguma revista que tenha feito algum roteiro interessante, para ter alguns pontos cruciais, mas depois é deixar-se perder e encontrar-se em lugares maravilhosos tanto de praia, como de serra, no inverno na neve, campos, bons restaurantes, bons hotéis. Recomendo também, como parte de um roteiro túristico, os arquipélagos da Madeira e dos Açores que oferecem paisagens deslumbrantes e totalmente distintas de tudo o que se possa ver em território continental.


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